sábado, 7 de agosto de 2010

Um sopro de vida para o Senhor Ericson

Um sopro de vida para o Senhor Ericson
por Alexandre Nicoletti Hedlund


   O Senhor Ericson trabalhara a vida inteira como limpador das válvulas das máquinas da indústria teceleira de Herrman Splitz. Certa noite, o Senhor Ericson, cansado de seu fastidioso labor, chegou em casa e, atravessando o grande corredor que se iniciara na porta de entrada e que o levaria até o lavabo, silenciosamente se sentou diante do espelho. 
   Seus olhos azuis contrastavam com a sujeira que o envolvia, realçando ainda mais o deplorável estado de seu corpo. Sua velhice precoce e o respirar carregado eram contemplados de forma serene pela imagem no espelho que o fitava.

- Seu velho idiota! Grande velho idiota! - sussurrou para o espelho.
- Não percebe a serenidade que tua vida não contempla? - exclamou.

Não conteve uma gargalhada.

- O que está acontecendo ai, pai? - gritou Mia, sua cansada e sofrida companheira de decepções.

- Nada, me deixe com meus fantasmas. - respondeu o Senhor Ericson.

Pegou suas mãos sujas e passando-as no rosto, percebeu que a sujeira se espalhava de lado a lado. Sentiu-se mais nojento, um ser desprezível em sua própria essência.

- O que esperava de ti? O que esperava de mim?  - balbuciou, sem levantar o rosto.
- Está falando com quem, homem? - gritou Mia, raspando uma colher na panela ao fogo.

E nesse momento o Senhor Ericson sentiu um sopro de vida, fulminando seu coração, enquanto ele caia ao lado da pia que Mia limpara a alguns minutos.

O Senhor Ericson recebeu flores de Herrman que não pode lhe saudar em seu funeral, pois na indústria, contratava-se outro limpador de válvulas.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

dias de chegada e dias de partida

Dias de Chegada e Dias de Partida
por Alexandre Nicoletti Hedlund

Há dias de partida
e Há dias de chegada
e nesse vai e vem dos dias
eu vou vivendo

por vezes solitário
transeunte
traduzindo em palavras
a fonte das fontes

e no fim das contas
o que quer dizer tudo?
são devaneios
apenas devaneios
de pensamentos 
que se atravessam
trazendo saudades
trazendo lembranças
sempre o passado
e nunca o presente

Eis que é hora de mudar, não acha transeunte?
Olhar o horizonte 
e ver mais 
que o confronto de céu e montanhas
mais do que as músicas
tristes por serem tristes
e do que os poemas
tristes por serem meus 
podem dizer...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Poeta sem sua musa

O Poeta sem sua musa
por Alexandre Nicoletti Hedlund

O Poeta sem sua musa
é moldura sem retrato
inverno sem nossas cobertas
é comidinha sem sal

O Poeta sem sua musa
por vezes se torna chato
é um castelo sem janelas
é o tom irracional

Quão triste sou eu
pretensioso em ser poeta
sem carregar em meus pensamentos
a delicada imagem mais singela 

Quão triste é a vida
pretensiosa em ser vivida
na plenitude de suas formas
em que encontro a imagem dela

Oh musa inspiradora!
tua existência é condição
que aos meus dias traz calor
que me afasta a tristeza
pois sou errante da madrugada
que busca em ti inspiração
 pois teu sorriso é o sabor 
que traduz toda beleza.


O Poeta sem sua musa
perece nas noites de inverno
se queima no sol do verão
pois se torna, aos poucos,
um revoltado, insensível
a bravejar sua solidão

Por isso, eu suplico a vós
Oh musa de meu coração!
permita-me mais um poema
aceita uma simples canção
pois eu, sem a tua presença
não sou sentimento,
sou simples razão.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O Sorriso

O Sorriso
por Alexandre Nicoletti Hedlund  

O sorriso que me lanças
muitas vezes sem querer
me faz um bem à alma,
mesmo sem aparente explicação
pois, ao sorrir assim, oh moça!
meio sem jeito ou modo algum
me apresenta tua doce alma
e encanta meu coração

E com o sorriso que me acenas
na distância que nos separa
talvez não imagines, mas crias
muito mais que uma morada
meu exílio, meu refúgio
faz-se abrigo em teu peito
no qual passo a ser o visitante
pretensioso em poder amá-la

oh tu, moça e teu sorriso
jardim de rosas molhadas de orvalho
guardiã de meus secretos sonhos 
rouba-me constantemente a atenção
retira de mim as palavras
traz confusão aos sentidos
devotos únicos de ti
escravo que sou de teu coração

domingo, 27 de junho de 2010

Tarde, mas não tarde demais

Tarde, mas não tarde demais
por Alexandre Nicoletti Hedlund 

No silêncio da tarde
na bagunça da mesa
tantas coisas dispostas
tantas histórias jogadas assim

A fumaça do cigarro
foi tal companhia
enquanto anotava algumas lembranças
em rascunhos que não se pretende 
mesmo que seja tarde
passar a limpo

chamei Chico para cantar
suas músicas dos velhos tempos
mas as tardes mesmo assim
não deixam de ser silenciosas

notei que entre tantas coisas
faltam tantas outras
e que apesar de ser tarde
talvez ainda houvesse tempo
antes que fosse tarde demais

não entendo tais pensamentos
que ocorrem nessa tarde
será que é próprio da tarde
nos dizer que já é,
mesmo não sendo tão tarde?

e nessa tarde, o sol aquece
mas logo adiante ele também
há de ir embora, pois é tarde
e logo há de escurecer

mas antes que seja tarde
me perdoe por favor
por contar tantas coisas
que em si não formam uma história
sou apenas um trovador
desses que não tem muitas histórias a contar
apenas recordações de algumas tardes
antes que seja tarde demais.

sábado, 26 de junho de 2010

Os dias que passam por nós

Os dias que passam por nós
por Alexandre Nicoletti Hedlund

as vezes me pego pensando
nos dias que passam por nós
silenciosos, chuvosos
alegres, festivos

são tantos dias que passam por nós
que muitas vezes nos acostumamos
tornando seguro o cotidiano
sem dar espaço para novas possibilidades

são tantos dias que parecem não passar
enquanto outros que passam mais rápido 
que a velocidade da luz
e nesses dias que passam por nós
me pergunto onde eu estava
o que fazia...

certamente, por ser transeunte,
vagava de lugar em lugar...
de pensamento em pensamento...
me pego agora pensando
em meio ao cheiro de tinta acrílica
dispersa em cima da mesa

onde eu estava 
enquanto esses dias passavam?

por ser transeunte 
pensei em continuar caminhando
mas agora é tempo de descanso
de reaprender o sentido de caminhar
e de avaliar os rumos da caminhada
nesses dias que passam por nós

pois os dias que passam por nós 
passam rápido demais para não aproveitarmos
e eu passo a considerar
que, a partir de agora,
passarei pelos dias
aproveitando cada pôr do sol
e todos os dias de chuva
pois os dias não passarão mais por mim
mas eu,
transeunte indelével,
passarei pelos dias
colhendo os frutos e flores 
que os dias possam oferecer...
Quanto a ti?
Aproveita o dia também.
 

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Da série: Mais fácil que postar no Blog - vol. 3

Mais fácil que postar no Blog é lutar contra o vento e vencer.