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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

XI - Réquiem para Joaquim


Segue mais um capítulo do Réquiem para Joaquim, escrito nas noites chuvosas e frias desse inverno. Que seja de seu agrado, meus caros.

XI – E, se for preciso, apenas não faça nada.

Acordei com frio e com uma fraqueza tamanha. Acordei em meio a tudo que estava espalhado em minha vida. Foi assim, meus caros, que despertei naquela manhã silenciosa. Os remédios haviam cumprido sua promessa e, agora, eu havia acordado ou retornado de uma viagem inesquecível. Na dúvida, aceitei o desafio e revirei várias roupas pelo quarto, preparando-me para a jornada.

Olhei meu rosto no espelho e, em um ímpeto de raiva, esmurrei o espelho, cortando minha mão. A raiva daquela imagem, agora já distorcida, me fez chutar algo que estava no chão e, então, um copo se partiu. As coisas não estavam bem. Ao ver as gotas de meu sangue caindo ao chão e manchando as roupas e o tapete, percebi o quanto era frágil, o quanto era humano e que minha condição de mortal em sua fragilidade doentia me exigia uma resposta. Ainda que estivesse autorizado a errar, eu deveria ter forças suficientes para logo adiante ser mais e melhor. Era disso que se tratava a vida e eu estava falhando comigo ao continuar errando.

Lavei as mãos e, mesmo assim, o sangue corria como o leito de um rio revolto. Enrolei minha mão em uma camiseta velha e pressionei para estancar o sangue. Depois de um tempo tudo parou. Até mesmo a raiva de mim. Como tinha pressa, larguei a camiseta no chão e fui. Disse “até breve” para Colombo e segui rumo a minha vida.

A noite quente de Caracas me recebeu tão graciosa que acreditei estar, realmente, fazendo as pazes com meu passado. Fui direto a um hotel do centro e me hospedei no quarto 503. A vista era muito agradável, e da pequena sacada eu via a imensidão do azul da piscina. Fumei um cigarro enquanto colocava uma dose de whiskey em meu copo. Liguei a televisão e, no canal interno do hotel, Miles Davis preenchia meu coração com “Blue in green”. Apesar da viagem ser cansativa, eu me sentia tão tranquilo que não vi as horas passarem. O vento cintilava ao redor de meu corpo cansado. Quando os cigarros acabaram, adormeci entrelaçado as minhas lembranças.

No dia seguinte fui até o cemitério “General Del sur” e, após algum tempo, encontrei os túmulos de Alicia e Henrique. Depositei rosas brancas em seus túmulos e então permaneci sentado em silêncio, procurando acalentar meu coração nas recordações de Alicia e na certeza de que ela cuidava de nosso pequeno onde estivesse. Quando decidi me levantar e sair, senti meu mundo girar e acabei por errar a saída. Caminhando por entre os túmulos, fiquei pensando em tantas coisas e me questionei sobre a razão de minha vida e minha vinda a Caracas e, para meu espanto, a resposta estava na Cruz Mestra no centro do cemitério. A alta cruz branca, rodeada de velas e flores trazia inscrito PAZ, disposta tanto na vertical quanto na horizontal.

Compreendi que se tratava de um sinal e, posso confessar-lhes, que aquilo me trouxe um sopro de tranquilidade. Caminhei por entre as ruas tão mudadas daquela velha cidade que havia me abrigado em tempos difíceis. Como eu havia sido feliz naqueles tempos com coisas tão pequenas. Parei em alguns lugares, mas os rostos, agora estranhos, não me diziam mais nada. De alguma forma eu havia cumprido minha missão. Era hora de seguir sem olhar para trás.

Voltei para o hotel com a indubitável certeza de um novo destino. Até pensei em visitar antigos amigos, mas não poderia contraria o universo naquele momento. Quando o restaurante do hotel começou a servir o almoço eu já estava sentado nas cadeiras charmosas de um deck próximo a piscina. Sem muitas demoras fui ao aeroporto, o avião partiria logo no fim do dia.

A manhã cinzenta e fria de Paris me recebeu com o vento batendo em meu rosto como que querendo me abraçar. Logo eu estava, outra vez, na frente do Cluny Sorbonne. Pierre, um bonachão que parecia ter a idade daquelas paredes, ainda lembrava de mim e me chamou pelo nome. Quase me senti em casa. Enquanto fazia o check-in ele me perguntava de Colombo. Ao contrário da noite anterior, eu estava muito cansado e, após um banho quente, apenas me restava dormir. A garrafa de whiskey que Pierre havia, gentilmente, solicitado que deixassem em meu quarto, ficaria para outro momento.

Apesar do ímpeto que me levara a Paris, sentia-me tão confortável naquela cama que acordei próximo ao meio dia. Era estranho, mas cada vez que me olhava no espelho, sentia-me melhor, com mais cor, com mais brilho, com uma certa esperança, ainda que o olhar ainda trouxesse um sofrimento ímpar.

O almoço foi na última mesa do restaurante do próprio hotel, de forma que não pudesse ser importunado. Sai pelas charmosas ruas de Paris e comprei as flores mais bonitas possíveis, para depois, descer as escadas do metrô. Notei o contraste entre as flores e o cinza da maioria de pessoas que, em silêncio ou em babélicas conversas, acompanhavam meu destino, ainda que por um tempo. Tentei imaginar quantos me encorajariam se soubessem de meus propósitos. Uma menina acompanhada de seu avô me sorriu e logo desceu.

Em pouco tempo eu já estava numa rua qualquer ou, talvez, na rua que me traria respostas. Por um momento me detive, observando o discreto letreiro da “livres et papeterie Fernet”. Na verdade fui praticamente arrastado por duas senhoras que, apressadas, entravam agora. Deparei-me com Sophie e ela ficou totalmente sem reação diante de minha estagnação. Incomodada, pediu que uma funcionária mais velha continuasse o atendimento das senhoras que pareciam mal humoradas e veio ao meu encontro.

O tempo não parecia ter passado para ela e sua jovialidade ainda lhe dava formas tão dóceis e um olhar tão encantador. Parada em minha frente, contemplou-me por algum tempo, até acabar por me abraçar, numa mistura de riso e lágrimas. Senti em meus braços o doce amargo da saudade e da descrença, no afago de uma pele estranha, alguém que eu já desconhecia, como se fosse outro corpo e outra alma, jamais as de minha amada.

- Joaquim! Eu não acredito que você esteja aqui na minha frente. Não sei o que lhe dizer ou como me portar. – Suas mãos pareciam incomodar-lhe – Eu achei que você estivesse morto!
- E eu estava. – limitei-me a sorrir nervosamente com o canto da boca, muito desconcertado pela situação.

Notei que ainda segurava o ramalhete de flores e então as entreguei. Ela, estranhamente, apenas largou-as sobre o balcão. Posso parecer precipitado, mas senti as flores murchando no toque das finas mãos de Sophie. Creio que ali estava outro sinal.

- Sophie! Eu gostaria de conversar com você, mas não quero atrapalhar seu trabalho.
- Preciso de um segundo, volto logo. Sente-se e me aguarde.

Por mais que o tom de sua voz fosse de repentina alegria, ela saiu, pegando as flores e entregando para sua secretária que recebeu a incumbência de colocá-las em um vaso com água. As fileiras de livros acompanhavam agora, solidárias comigo, o murchar das flores diante de tanta indiferença. Lembrei-me que essa era a beleza das flores, murcharem para mostrar a efemeridade do tempo.

Sophie apareceu minutos depois, com uma roupa cinza que, apesar de tudo, ainda lhe dava um ar de beleza. Saímos para caminhar e meus pés nos conduziram aos jardins do Louvre. Sentamos próximo a um chafariz e fiquei observando a beleza do lugar. Após algum tempo de silêncio em que parecíamos tentar recompor uma eternidade de ausência, começamos a conversar. De certo modo, nenhum dos dois se sentia preparado para conversar sobre a noite em que Sophie, simplesmente, desapareceu de minha vida.

Não aguentei a angústia que arrebatava meu coração e lhe pedi que me dissesse o que havia acontecido. Fugindo de meu olhar, Sophie fitava o balançar das folhas dos plátanos. Nesse transe, ainda sem olhar para mim, ela respondeu.
- Eu fiz o que me pareceu certo.
- Como assim Sophie? Não consigo entender. – Eu estava exaltado pela resposta tão simples que ela me oferecia.
- Eu fiz o que me pareceu certo.
- Tentei durante tantos anos compreender o que eu poderia ter feito para que você tivesse sumido.
- Joaquim. Eu me apaixonei por você, mas nosso amor seria impossível. Você era apenas um estrangeiro cheio de sonhos, mas sem posses ou condições financeiras. Como eu poderia lhe apresentar para minha família?
- Não acredito no que estou ouvindo, Sophie. – suas palavras, ainda que despretensiosas, machucavam, com tanta força, meu coração.
- Eu fiz o que me pareceu certo, Joaquim. Você não me amava verdadeiramente, não seja tolo!
- Isso não é verdade, você foi fraca e egoísta, Sophie!
- O que mais? Fale! Ofenda bastante!
- O tempo pode ter passado para nós, mas eu ainda sei quando você mente, pois, nessas situações, você não responde o que pergunto, mas apenas diz “o que mais”?
- Joaquim, nosso relacionamento não se manteria ao longo do tempo. Você era inconstante como o vento!
- Sophie, você está me chamando de pobre? Foi por isso que você preferiu sumir da minha vida? Por eu ser um pobre estrangeiro?
- Joaquim, não seja tolo. Sempre admirei sua inteligência e a forma divertida de me intrigar com seu conhecimento, mas você não tinha futuro.
Indignado com tais perversas palavras, agora eu começava a remontar um quebracabeças de tantas peças faltantes.
- Muito bem Sophie, já entendi o que você pretende dizer, e já me basta para o dia de hoje. Percorri o inferno perdido na certeza de ter perdido você e ao descobrir que você ainda estava viva, só tive a intenção de reencontrá-la, pois convivi durante anos com uma ferida aberta, pela sua ausência. Agora descubro que não era digno de estar ao lado da Madame de Fernet.
- Joaquim, não precisa me ofender!
- Não estou lhe ofendendo, mas veja o que falou!
Decidi levantar e sair, mas ela me segurou pelo braço.
-Joaquim, espere. Não vá. Ainda não.
- Não há motivo ou razão para eu ficar, Sophie. Resolvido o passado, agora é hora de pensar no futuro, e não será ao seu lado. Você me traiu da forma mais cruel possível.
- Eu não lhe traí. Tenha certeza disso. Eu não lhe traí. Segui apenas a razão.
- Como tratar o amor mais puro e verdadeiro com razão?
- A razão precisou falar mais alto, e precisei guiar meus instintos para no futuro não sofrer. Amei-o o suficiente para deixá-lo ir.
- Pois bem. Se assim o fez, é porque não me amou. Precisei sofrer tanto por você, para no final, perceber que nossos caminhos eram distintos, pois no fundo, não éramos nada iguais, éramos apenas dois estranhos com carência de amor, tentando nos apoiar na carência do outro.

Ela levantou e então, estendendo a mão, me pediu:
- Você vem comigo?
- Não Sophie. – Disse-lhe com muita tristeza e coragem. Nossos caminhos não se cruzam mais nessa jornada. Aguardarei você partir e tomarei a direção contrária.
- Como se fosse possível outro destino! Tão tolo Joaquim!
- Eu amei a pessoa errada. Apenas isso. Amei que não estava disposta a me amar. Isso é um fato, ainda que o mais dolorido de todos.
- Fala no amor como se a vida se resumisse a isso.
- Então a tola és tu, pois a vida sem amor é como um corpo sem alma.
- Você e suas poesias baratas, não é a toa que o melhor foi tê-lo deixado.
- A poesia barata que um dia lhe fez sorrir?
- E se sorri, do que me adiantaria! Viveria uma vida de sorrisos simples ao lado de um jovem sem futuro?
- Estou cansado. Agora é hora de você ir. Volte para sua vida medíocre. Eu tratarei de seguir um novo caminho.
- Vejo que está desapontado comigo, Joaquim!
- Não Sophie. Eu estou desapontado comigo, por acreditar em você.

Foi assim, meus caros, que, com o coração feito um cristal quebrado pelo descuido do amor de uma mulher, em tantos pedaços quanto imagináveis, eu segui, sem rumo, pelas ruas frias de Paris. Engraçado agora estar assim tão perdido, mesmo tendo encontrado a paz que havia buscado e da qual fugi por tanto tempo.

No final daquela tarde cheguei ao hotel e fui direto para o chuveiro. Dessa vez não escutei qualquer voz ou presságio. Apenas o som da água que caía, e, junto com tantos pensamentos, seguia pelo ralo. Não conseguia entender como parecia tão difícil que pudesse ser feliz. De certa forma, compreendi que nunca me permiti ser feliz, amparando-me nas recordações de alguém que, de forma cruel e consciente, permitiu-se se afastar de mim e me isolar no ártico da saudade. O velho dilema voltava agora a minha cabeça, nesse instante: como abrir uma porta que já estava aberta?

Recostado na cama, comecei a folhar Bukowski enquanto uma barata correu de lado a lado do quarto. Pensei em levantar-se e matar a infeliz, mas hesitei, pensando ser uma parenta de Kafka. Ri sozinho e preferi continuar a leitura, até adormecer.

Foi fácil abrir os olhos para aquele dia, ainda que sem qualquer perspectiva do que seria feito de tal imediato. Aproveitei para passear pelas ruas desconhecidas, por entre pessoas desconhecidas e por uma vida que se iniciava no instante em que apoiava um passo atrás de outro, no concreto antigo daquelas ruas. Resolvi afinar meu francês e comecei a conversar com um senhor que estava sentado em um bistrô, bebendo sua taça de vinho.

Seu cão o acompanhava na apreciação do passar do tempo e tivemos uma conversa muito proveitosa. O Senhor Jean Le Mars era uma pessoa fascinante. Logo me contou sobre sua vida, sobre as guerras que havia enfrentado, sobre a tristeza dos amores partidos e do dia em que, ao retornar para sua cidade natal, viu sua casa, a casa que habitar quando fora criança, destruída pelo tempo.
- Joaquim, meu jovem, a vida é muito curta para sofrimentos. – os olhos se enchiam de lágrimas ao lembrar de tantas coisas que havia passado.
- Mas o que fazer com pensamentos que atormentam tanto, Monsieur Le Mars?
- os pensamentos são como pedras que carregamos em nossa alma, Joaquim. Quantos realmente você deseja continuar carregando?
- Tens razão, Monsieur, tens razão!
- Não Joaquim. O tempo é o senhor da verdade e foi ele quem me ensinou. Aproveita esse ensinamento enquanto tens uma vida. Que teus anos vindouros sejam os melhores.
- Temo não ser possível. O que eu devo fazer?
- Joaquim, temes o que, afinal? Repensa o que peso de cada pedra e o que deseja realmente carregar em tua caminhada. Ouça a voz do silêncio e, se for preciso, apenas não faça nada.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Réquiem para Joaquim - Capítulo X

Embora eu tivesse prometido que esse projeto teria apenas 10 capítulos, conviver com Joaquim, durante tantas páginas e histórias, fez-me seu amigo, de forma que, autorizado pela brevidade da vida que nos cerca, preferi escrever mais uma ou outra linha, transformando o "X" capítulo em dois ou três.
Por isso, segue abaixo, o X capítulo que, se apresenta como tal, jamais como o último. Alterei coisas nos primeiros capítulos, mas deixairei tais mudanças para a edição em livro (sonho que um dia realizarei).

Que apreciem Joaquim.


X – Joga-te e descobre

A escuridão cobria minha visão como nas noites vazias, frias e silenciosas do prenúncio do inverno. Em meio àquela escuridão houve luz e novamente a escuridão. Depois a visão ficou turva por uma névoa que surgia lentamente. Logo um vulto se aproximou envolto à neblina e, mesmo a distância, eu o reconheci.
- Caronte, meu velho amigo!
Ele apenas se limitou a sorrir o sorriso dos justos.
Agora eu me dava conta de onde estava e, principalmente, o que derradeiramente seria feito.
- Que belo barco escolhestes para a jornada!
Ele me encarou de alto a baixo, enquanto eu apalpava meus bolsos na vã tentativa de encontrar as moedas.
- Joaquim, seu tolo! Como pretendes viajar se não podes pagar o preço?
- Creio que me pegastes desprevenido.
- Tolo, tu te preparastes tanto para essa jornada e esquecestes do pagamento? Lamento mas te custará caro.
- Como assim?
- Não percebes que a travessia das vidas mal vividas, incrustadas de tristeza e amargura, custa muito além do que tu podes pagar.
- Caronte, meu nobre barqueiro! Não consigo compreender o que pretendes dizer.
- Acompanho tuas amarguras há tanto tempo Joaquim, ou tu pensas que os que habitarão o submundo não são acompanhados desde que começam a desprezar suas vidas?
- Quanto trabalho! – lamentei o labor de Caronte.
- Tu não imaginas quanto, mas gosto do que faço e o chefe não costuma aparecer por aqui. Sou praticamente um autônomo.
Rimos em meio à neblina que envolvia o barco.
- Por acaso tu não tens uns copos para um drink?
Assustado Caronte me olhou.
- O quê? Mesmo nessa hora tão tua tu pretendes beber?
- Se a hora é minha, vamos beber em grande estilo. Acompanha-me?
- Não sei se devo, estou dirigindo.

Rimos novamente e percebi que lhe faltava companhia nesse lugar esquecido pela luz. Embora não tivesse trazido as malditas moedas, não me esqueci de minha preciosa garrafa de Whiskey. Servi-lhe uma generosa dose e aproveitei para acender um cigarro.  O barulho do isqueiro ecoou pela escuridão. Sentamo-nos.
Confesso-lhes, meus caros, que foi uma conversa muito agradável.
- Não lembro de alguém que tenha aparecido com uma dessas especiarias. – Caronte sorvia a bebida com muito apreço.
- Pois então brindemos a vida e a morte!
- Não meu caro, brindemos a vida, pois eu sou a morte.
- Caronte – eu não conseguia parar de rir – tu és uma figura! Se os mortais soubessem o quanto tu és divertido, não lhe temeriam como a morte!
- Joaquim – ele não conseguia parar de rir também – tu és tão amigável quando queres que não consigo entender como deixou tua vida se esvair pelo ralo.
- Também não sei direito, meu caro, mas a vida não foi justa comigo por tanto tempo, deixando as pessoas que mais amei irem com o vento. Quando me vi no espelho, já não me reconhecia mais, já não tinha um sorriso a oferecer, não tinha mais sentido em buscar alguém, pois logo tu farias o teu serviço e eu ficaria sozinho novamente.
- Apenas faço meu trabalho! Espero que entendas!
- Compreensível, mas me questiono a razão de tantas vezes tu ter conduzido meus mais próximos. Por que trouxestes Alicia e meu pequeno filho?
- Eu não os trouxe, eles foram à luz.
- E Sophie?
- Sophie não morreu.
- Não morreu? Então o que houve com ela, pois eu a procurei por tanto tempo e nunca obtive nenhum sinal.
- Não pense mais nisso. Esqueça. Não há mais tempo para isso.
- Tentei esquecê-la, mas não consegui. Amei-a com tanta ternura que minha vida terminou quando eu a perdi. Dali em diante foram apenas tropeços e erros acumulados ao longo do trajeto.
- Joaquim! Creio que seja tarde para falarmos dela. Conte-me mais de Colombo. – Caronte parecia incomodado com a conversa.
- Espere um pouco. Antes me diga o que pretendes esconder mudando o rumo da conversa.
- Não posso falar sobre Sophie, ordens superiores.
- Como assim? O que está acontecendo aqui?
- O chefe me mata se eu contar!
- Caronte, mas tu és a morte. Logo, não podes morrer.
- Está bem! Tu tens sido uma boa companhia e sempre torci que tu vivesses plenamente.
- Conte-me então.
- Em algum momento daquele dia em que tu te encontrarias com ela, houve alguma coisa que mudou o rumo das coisas. Por escolha dela e dos caminhos que ela pretendia seguir, ela não foi ao teu encontro.
- Custa-me crer nisso que me contas.
- Pois é a verdade. Na noite em que vocês se encontrariam e que tu pretendias oficializar o pedido de casamento, ela, pressentindo tal acontecimento, preferiu silenciar o coração e deixou que tu fosses embora. Não duvido que ela até o amasse, mas foram escolhas dela. Adiante ela se arrependeu, ao que me consta, mas alguém próximo a ela, querendo o afastamento de vocês, tratou de informá-la que tu tinhas morrido no regresso, de forma tão verossímil que ela, relutante, acreditou.
- Meu Deus, o que é isso que tu me contas!
- A verdade. Ela sofreu durante algum tempo e nunca se recuperou totalmente, mas a vida seguiu.
- Mas onde ela está agora?
- Ela vive em Paris. Não se casou embora os pretendentes fossem tantos. Tem uma livraria perto do Louvre. Creio que tu passastes na frente com Colombo, mas não a observou.
Fora de mim, levantei e tentei ver uma saída.
- Preciso voltar a viver!
- Tenha calma Joaquim! Não há saídas aqui.
- Caronte, meu ilustre barqueiro, se há entrada, há saída. Eu preciso voltar a viver! Tu não entendes que a razão do meu sofrer se constituiu em não ter Sophie ao meu lado? Agora que sei a verdade, preciso regressar e ser feliz!
- Pobre Joaquim, como pretendes me convencer que tua felicidade dependia de outra pessoa? Tolo és tu ao pensar assim. A felicidade deve estar em ti, nos teus atos, na tua disposição para a vida.
- Caronte meu nobre! Ajuda-me! Ajuda-me!
- Temo não poder ajudá-lo.
- Mas eu preciso entender isso antes de fazer a travessia. Essa é a razão de tal conversa, que eu entenda os motivos!
- Está bem, mas há uma condição!
- Qual seja, estarei disposto.
- Quero que tu dês uma prova de amor verdadeiro pela vida ao retornar para tua vida. Recomeça a viver e seja teu maior amigo, seja aquele que te protege de ti mesmo nos momentos de fraqueza. Aquele que te fortalece e te dá inspiração para viver plenamente a vida pelo tempo que te restar.

Estava realmente surpreso com a proposta de Caronte, pois esperava algo totalmente diferente. Refleti e então lhe disse:
- Está bem, eu aceito a condição, mas peço que eu possa retornar de tempos em tempos para conversarmos.
- Tua disposição me deixa feliz, embora não seja comum que eu, o barqueiro, sinta-me feliz!
- Agradeço-te, oh Caronte, pela confiança.
- Pega em teu bolso esquerdo uma moeda de cobre, segura-a na mão, e pula na água.
- Como assim? Não tenho nada nos bolsos.
- Tu achastes que teríamos uma porta aqui? Quem garante que isso não é apenas um sonho, meu nobre Joaquim? Joga-te e descobre se tu não estás a dormir.
Aquilo ecoou em minha mente. Uma angústia tomou conta de mim.
- Não serão os teus lamentos como a névoa que encobre a noite, mas que se dissipa ao calor do sol? Será que não encobres tua vida com uma névoa, impedindo que o calor do sol dissipe-a e tu possas ver claramente as belezas da manhã?
- Joga-te e descobre!

terça-feira, 8 de março de 2011

Uma nova estação

     Uma nova estação
Por Alexandre Nicoletti Hedlund

     Após uma longa caminhada na qual não esperava encontrar qualquer respostas para suas angústias, Antônio resolveu que era hora de sentar-se a mesa e comer. A sala e cozinha conjugadas deixavam o ambiente mais apertado, como sufocando seus sonhos, e era assim que ele se encontrava há muito tempo. Fitou a parede branca e percebeu pequenas rachaduras que, em conjunto, pareciam árvores no outono, dançando com o vento. Adiante percebeu um banco, vazio, e quis sentar-se nele. Adiante não havia nada além da parede branca com pequenas rachaduras.

     Sem qualquer receio, levantou-se, e bebeu água o suficiente para não sentir sede pelo resto da vida. Mas a parede ainda o chamava, de certo modo ela parecia querer contar-lhe algo, algum segredo que não pudesse perceber em outro momento de sua vida. Aquelas pequenas rachaduras, passavam agora a ser a melhor companhia de Antonio. Notou que sua desenvoltura e relevo permitiam agora uma certa calma, uma certa paz. A pouca luminosidade agora dava novos contornos as falhas da parede branca e as sombras do fim do dia lhe enfraqueciam a visão. 

     Voltou-se a sentar, agora disposto de outra forma, pois não conseguia se imaginar eternamente olhando para a mesma parede branca, sem ao menos tentar novas perspectivas, novos campos de visão, e o entardecer lhe proporcionava uma certa melancolia. Suas mãos dispostas sobre a mesa, lançadas, jogadas, já sem força, contrastavam com o mogno escuro que, por um momento, lembraram-lhe um caixão. Mas não havia tempo para fúnebres devaneios, apenas a parede branca e suas rachaduras, as mãos e suas rachaduras.

     De certo modo, agora percebia a similitude entre ambas. Mas muitos verões e invernos já haviam passado por suas mãos, que poderiam lhe contar muitos segredos que ele mesmo desconhecia, e que apenas atestavam os sonhos perdidos no tempo. 

     No fim não existia nada além disso, paredes e mãos, e então, em um ato de loucura pintou sua mão com tinta de calçados e a pressionou contra a parede, deixando sua mão pintada de preto nas rachaduras da parede branca. Notou que o novo contexto apenas retratava ainda mais as rachaduras da parede e as marcas e cicratizes na mão. Voltou-se a sentar e, assim, ficou, admirando a mão lançada no vento que batia nas árvores daquele outono, enquanto o banco vazio esperava por ele. Adiante não havia nada além da parede branca com seus sonhos que o vento levara.

     Cobiçou poder sorrir, mas a escuridão da noite se antecipara, e no silêncio, sem ao menos acender uma luz qualquer do ambiente, permaneceu. Agora era apenas ele, a parede branca com a mão de seus sonhos perdidos e o silêncio da escuridão. Olhava para a mão pintada de preto enquanto que com a outra, sustentava a cabeça, cada vez mais cheia de dúvidas, de anseios, de angústias.

     E da escuridão conseguiu ver novamente tudo, pois seus olhos iam se acostumando com as mudanças de tonalidades que a noite ia aconchegando e, por fim, pode novamente ver as rachaduras na parede branca e então, por algo mágico, digno dos contos romanescos, percebeu coisas que não precisavam ser explicadas a ninguém, pois ele, Antônio, já as havia entendido. Suspirou e no silêncio e no escuro caminhou em direção a parede branca, recostando-se de tal forma que logo já estava sentado no chão e então assim adormeceu, na vã tentativa de sentar-se naquele banco vazio e esperar uma nova estação.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Réquiem para Joaquim - Capítulo IX

Este é o 9 e penúltimo capítulo desse conto que me acompanhou ao longo do ano, fazendo de Joaquim um amigo, assim como Colombo. Espero que gostem. 



IX – Não quero um abajur enfeitado.
 Por Alexandre Nicoletti Hedlund

Maracaíbo. Uma brisa batia e acalmava meu corpo deitado ao lado de Mercedes. Dois corpos suados numa tarde qualquer perdida no tempo. Não demoraria muito a escurecer quando levantamos com o barulho da rua. Eram senhoras com cestos de roupa na cabeça que cantavam antigas músicas do sofrimento da escravidão e da liberdade. Nua, Mercedes contava da janela o que acontecia do lado de fora. Uma prévia do paraíso se desenhava em suas costas banhadas por tons alaranjados do pôr do sol.
- Acorde Guido! Acorde! Estamos chegando ao Rio. – Joaquim já de pé, alcançava nossas bagagens de mão.
Levantei meio sonolento e saímos, embora eu não tenha lhe dado muita atenção, preocupado mais por não ter conseguido mudar as coisas para Joaquim. Sequer poderia imaginar que ele já preparava outra aventura.
- Preciso ir a um lugar antes de seguirmos viagem.
- Você está maluco, irmãozinho? Precisamos seguir “adelante”.
- Fique tranquilo, apenas me siga. Preciso fazer uma coisa antes de irmos embora do Rio e você fará comigo.

Nem imaginei contrariar Joaquim, pois ele estava mesmo decidido a ir a algum lugar. Tomei a iniciativa de pegarmos um táxi enquanto ele procurava um jornal do dia. No caminho eu tentava me localizar e cheguei a discutir com o taxista, pois achei que ele estivesse nos enganando. Joaquim apenas riu da situação, pedindo calma de minha parte, mas sua atenção se voltou para outra coisa que demorei um pouco a entender. Era um menino no trânsito. Não que eu fosse insensível, mas depois de ver tantos meninos pobres pedindo dinheiro nos cruzamentos da vida eu já não me deixava atingir por isso. Talvez isso acontecesse com a maioria das pessoas que passavam por ali naquele instante, pois ninguém parava para lhe comprar um doce ou lhe ajudar. “Confortável omissão” pensei comigo, pois se os outros não fazem nada, também nos sentimos confortáveis em nada fazer. Nesse instante Joaquim mandou o táxi parar e quis sair pelo meio do movimento de carros. Tentei impedi-lo, pois me pareceu uma maluquice sem sentido, mas ele conseguiu se desvencilhar e foi por entre os carros, sem encontrar o menino.

Desconsolado resolveu caminhar um pouco e concordei, pois a viagem de Paris havia me deixado com dores nos joelhos. Coisas da idade.
- Você sabe quem foi Barata Ribeiro, Guido?
- não sei não irmãozinho.
- pois eu vou te contar. – Joaquim estava alegre por poder me ensinar algo. Eu deixei que continuasse.

Passado isso, logo estávamos na praia. Joaquim logo foi absorvido por seus pensamentos e eu apenas o respeitei. Tive de ajudá-lo a acordar para atravessarmos a av. Atlântica. Quando chegamos à praia ele quis se sentar por uns instantes. Pensei em aproveitar aquele vento gostoso e a sombra para cochilar, mas algo me impediu. Hipnotizado pelo mar e pela beleza de um azul magnífico de tantas tonalidades condensadas em um mesmo céu vi Joaquim chorar. Na verdade foram algumas poucas lágrimas que relutaram em cair, mas por final, vencidas, seguiram por seu rosto. Aquilo me fez ter esperança de que as coisas haviam mudado em Paris. Deixei-o sentado e fui molhar meus pés naquela imensidão de mar. Lembrei de um poema de Galeano, sobre o pai que leva o filho para ver o mar pela primeira vez, mas Joaquim estava tão concentrado que não pareceu correto lhe atrapalhar.

O sol estava se pondo quando achei por bem que voltássemos para o aeroporto. Quando chegamos à casa de Joaquim, liguei para Mercedes para avisá-la de que já estávamos bem e que em alguns dias estaria em casa. Mercê pediu que eu retornasse pois Lúcio havia chego em casa. Isso poderia estar mudando o rumo das coisas, mas eu resolvi ir ver meu filho, pois a saudade era muito grande. Prometi a Joaquim que voltaria em breve sem dar muitas explicações de minha viagem.

Ele não gostou muito de minha viagem, mas compreendeu. Creio que Colombo também, pois veio sentar-se ao meu lado antes de eu partir. Por um motivo que não pude entender Joaquim me entregou uma cópia das chaves de sua casa e fez questão de que eu soubesse algumas rotinas de Colombo que, por sua vez, já estava dormindo no tapete da sala. Deixei-os e segui para casa.

Era pouco depois do meio dia quando dobrei a rua das castanheiras, no alto norte da cidade. Mercê me esperava na porta, feliz por meu retorno. Os anos tinham lhe sido muito generosos e ela continuava tão bela como na primeira vez que a vi. Veio e me abraçou, passando seu braço em volta de meu corpo e me conduzindo para o interior de nossa casa. Lúcio, meu filho mais velho, havia chego de uma viagem pela América latina e estava almoçando. Beijei-lhe a testa e fui lavar o rosto e as mãos para também almoçar.
- Que saudade de sua comida, Mercê! – fiz lhe um carinho no rosto.
- Como está Joaquim?
- nada bem, mas falemos disso depois – respondi.
- Lúcio, me conte de sua viagem.

Lúcio era um jovem de dezenove anos que na mistura perfeita das raças desabrochava uma beleza única. Havia retornado de uma viagem de dois meses por vários recantos da nossa querida América Latina. Após escutar cada detalhe de sua grande aventura, prometi que na próxima eu iria com ele, afinal, ainda tinha esse espírito em mim, além de uma grande mochila. Era muito bom estar em casa e passei uma tarde agradável com minha família. As histórias e percalços da viagem de Lúcio me fizeram esquecer Joaquim por um tempo. No final daquela tarde, Mercedes comentou que aquele céu alaranjado que se espalhava por todo céu e aquele calor todo lhe trazia a sensação de estar em Maracaíbo.
Sentados nas bancadas da cozinha, enquanto Mercê preparava um prato especial para a janta em família, retomamos a conversa adiada.
- Joaquim não está nada bem e creio que nossa viagem para Paris não rendeu muitos frutos.
-Pobre Joaquim. Já sofreu tanto e parece não conseguir desfazer a névoa escura que lhe ofusca a vida.
- Enquanto ele passeava com Colombo eu tentei contatar algumas pessoas que pudessem nos ajudar, mas nada deu certo. – enquanto íamos conversando eu comecei a cortar os tomates.
- Termine logo esses tomates – disse Mercedes dando risada, pois sabia que eu era muito lento.
- Sim, Mercê! Está quase pronto.
- Joaquim parece viver por viver. Acompanha as pessoas na rua, como tentando desvendar suas vidas, mas carece de vida própria. Colombo é a única coisa que o mantém vivo, mas temo pelo pior, pois Colombo está ficando velho e logo partirá.
- O que poderíamos fazer para ajudá-lo, quando ele sequer aceita ser ajudado?
- Não sei, mas ele precisa achar um sentido na vida.
- O que você pensa em fazer agora?
- Estou pensando em deixá-lo uns dias sozinho, até ter alguma ideia.
- Talvez seja melhor, afinal, é ele quem precisa construir as pontes.
- Sim, eu sei disso, mas me sinto no dever de salvá-lo dessa prisão.
- Termine os tomates, Guilhermo Seamann.
- Sim senhora! – rimos enquanto terminávamos de preparar a janta.

Todos sentados a mesa, Mercê em um vestido branco lindo que contrastava sua pele morena, Lúcio e Alfredo, meu filho do meio e Valentina, a mais nova. Alfredo, com quinze anos, ainda não sabia que ficaria de castigo por ter chego tarde demais do futebol com seus colegas e Valentina era minha pedra preciosa, uma princesa de doze anos. Sentado diante dessas pessoas especiais, não pude conter uma lágrima que queria transbordar de tanta felicidade.

Foi uma noite maravilhosa e meus filhos estavam tão afetuosos comigo que não pude deixar Alfredo de castigo. Ficamos acordados até tarde da noite, todos rindo e contando diversas histórias. Quando todos já estavam dormindo, Mercedes deitou-se ao meu lado e me beijou tão docemente que fizemos amor entre suspiros e o silêncio da madrugada. Ela adormeceu e eu não pude evitar, precisava agradecer a Deus por ter uma vida maravilhosa.

No outro dia liguei cedo para Joaquim. Prometi voltar na outra semana, pois precisava resolver algumas coisas. Ele entendeu, embora sua voz tenha me preocupado. Algo não estava certo no quadro geral das coisas. Voltei a minha rotina, trabalhando nas manhãs em meu escritório e dedicando minhas tardes aos menores. Valentina e Alfredo passaram a se interessar por história antiga e passavam muitas tardes comigo.

Liguei várias vezes para Joaquim que não atendeu nenhuma ligação. No começo achei que poderia estar no mercado, no banho, no jardim, porém com o tempo a preocupação aumentou e temi que tivesse cometido alguma besteira. Decidi que deveria voltar e avisei Mercedes que entendeu perfeitamente, mas decidiu que iria comigo.
- As crianças ficarão bem, Guilhermo.
- Está bem, mas vamos logo, pois estou com uma angústia muito grande.

Eram dez horas em ponto quando cruzamos o portão e ouvi Colombo latir. Fiquei um pouco mais tranquilo, mas os jornais dos últimos dias estavam na porta. Colombo veio ao meu encontro e então me levou até o quarto de Joaquim. Que terrível imagem, meu coração disparou instantaneamente.
- Mercê! Meu Deus! Não suba aqui.
- O que houve, Guilhermo!
- Não suba! apenas isso. Melhor você não ver isso.

O quarto estava devastado, como se um tornado tivesse entrado no ambiente. Roupas e garrafas de Jack Daniels jogadas por todos os lados. Achei melhor abrir as cortinas para ver o lugar e então, sobre a mesa, um papel me chamou a atenção.
Com as mãos trêmulas comecei a ler e o nervosismo só aumentava.

“Caro Guilhermo, meu grande irmão!
Minhas forças para viver já não são suficientes para me manter em pé. Lamento muitas coisas nessa vida frustrada que levo, sem família, sem ninguém. Perdoe-me pela fraqueza em escrever isso, mas não tenho coragem de ligar e atrapalhar você. Lamento ter me afastado de você ao longo desses anos, principalmente por tantas vezes precisar de você e não ter ligado. Cuide de Colombo, ele está velho e rabugento, acho que puxou a mim. Ele gosta de Whiskey, assim como nós, mas não o deixe beber demais, senão ele pode falar alguma besteira. Hábitos nossos, apenas nossos.
Ele não gosta de comida feita em casa, por isso, embaixo do abajur enfeitado ao lado da cama tem dinheiro para as providências necessárias para sua alimentação nos próximos dois meses. Colombo precisa caminhar todas as manhãs, e tem um gosto específico por Plátanos. Assim, peço que localize um parque que os possua, para que ele não sinta as diferenças e não queira mais sair.
Entre em contato com essas pessoas abaixo e repasse os recados:
Cristine, minha secretária – Feche o escritório, ponha uma faixa de luto na frente. Você está de férias até segunda ordem.
Jeferson, do bar da esquina – Separe duas doses de Jack. Sem gelo, você sabe. Uma para mim, outra para a estrada.
Roberto, meu companheiro de bar – que ele beba algumas por mim.
Guilhermo – você mesmo, meu camarada. Nos vemos em breve, nessa vida ou em outra. Até lá, fique com o abajur, afinal, não quero um abajur enfeitado para onde vou.
Sophie  Eu te amei, mas a vida é feita disso, uma grande caixa de sonhos, viagens e chás que nunca vingaram’”

Quando terminei de ler em meio a tantas lágrimas e a indubitável certeza da morte de Joaquim, Mercedes estava ao meu lado.
- Meu Deus! O que esse homem foi fazer?
- é uma carta de despedida, Mercê!
- O que vamos fazer agora, meu Deus!
Totalmente desconcertado pela situação só pude lhe disse:
- Apenas ligue para a polícia.

Colombo sem muito entender, rondava a cama. Ficamos ali sentados por um tempo, apenas em silêncio, observando tudo e tentando entender o que havia acontecido. Meu pobre irmãozinho tinha aprontado mais uma das dele. Velho e tolo Joaquim.
 

domingo, 9 de janeiro de 2011

Réquiem para Joaquim - Capítulo VIII

VIII - Uma grande caixa de sonhos, viagens e chás que nunca vingaram
Por Alexandre Nicoletti Hedlund

O serviço de bordo anunciou a pátria amada, quando estávamos sobre o Rio de Janeiro, cidade com tanta bossa, com tanto samba e alegria.
Acordei Guilhermo que roncava ao meu lado.
- Preciso ir a um lugar antes de seguirmos viagem. – Disse-lhe enquanto pegávamos as bagagens de mão.
- Você está maluco, irmãozinho? Precisamos seguir “adelante”.
- Fique tranquilo, apenas me siga. Preciso fazer uma coisa antes de irmos embora do Rio e você fará comigo.
Certo de que não havia escolha, Guilhermo chamou um táxi que logo nos colocou pelas ruas. Estávamos na Barata Ribeiro quando o vi parado no cruzamento. Seu olhar lhe mentia a idade, escondia sua dor, seu grito contido, seu sofrimento de uma infância cerceada pela miséria urbana. Aquele menino, com roupas rasgadas, tentando vender um doce barato. Tal imagem me trouxe de volta a realidade do Brasil. Pedi ao taxista que parasse o carro, logo que entramos na Rua Santa Clara. Por algum motivo eu senti a necessidade preemente de parar e ajudá-lo, mas Guilhermo tentou me impedir. Quando consegui sair do carro o menino já havia sumido em meio aos carros e a multidão.

Dispensei o táxi e fomos caminhando até a praia. No caminho contei a Guilhermo sobre quem fora Barata Ribeiro e imaginamos o que ele faria se visse toda a pobreza que cercava o lugar e rimos. Apesar da brincadeira e de Copacabana que se anunciava em seguida, eu não conseguia tirar da mente a imagem daquele menino tão sujo, com um olhar tão tristonho, com os dedos já batidos de tanto trabalhar, maltratado e enganado pelo tempo. Lembrei de outra cena que vi do avião, aquele emaranhado dantesco de casebres, de pequenas construções amontoadas gritando o desespero cotidiano de quem sofre de fome e de sede de pão e de beleza.

Guilhermo em sua sabedoria bateu em meu ombro e disse sorrindo:
- Eu lhe compreendo Joaquim, mas agora precisamos atravessar a Atlântica.
Chegamos à areia e então pedi que sentássemos um pouco. Fiquei em silêncio por algum tempo, embora não possa precisar quanto tempo foi. Guilhermo disse que fiquei o tempo que era necessário para chorar em silêncio, embora eu sinceramente não me recorde de ter chorado.

O dia foi se despedindo lá no horizonte e precisávamos voltar ao aeroporto. Era madrugada quando chegamos e logo cedo quando Guilhermo partiu, prometendo que voltaria em alguns dias. Colombo estava ambientado ao lar, ainda que estivesse levemente dopado pela viagem. Olhei as poucas cartas de cobrança e de anúncios, abri as janelas para entrar um pouco de ar, mas o calor da cidade era insuportável. Assim passei o dia inteiro, reclamando do calor, que consumia meu tempo e meus pensamentos, evaporando-os a cada respirar. Liguei a televisão e o noticário destacava a morte de um menino de rua do Rio de Janeiro. Parei em pé em frente a televisão e vi espantado que Henrique da Silva havia sido morto em um confronto entre a polícia e os traficantes. Sua mãe chorava sua morte, a comunidade reclamava providências, as elites pediam paz. Uma trágica sinfonia de lágrimas, velas, cartazes, e no final do programa já se falava das belezas da praia e das fofocas dos artistas, ou seja, todos foram para suas casas com a certeza de terem feito o necessário, ainda que fosse apenas uma dose de autoengano.

O menino havia morrido. O menino que não consegui achar entre os carros e a multidão. E se eu tivesse o alcançado? Ele poderia estar vivo. E se? Tais dúvidas chicotearam minha mente criando um soturno abismo sobre meu ser.

À noite, o calor insuportável não me deixou dormir. A pouca luminosidade da rua logo transformou o teto em um palco onde fantasmas e sombras dançavam e cantavam, eu ouvia as flautas, o fogo e a festa dos sátiros, de repente um grito desesperado de quem não quer abraçar o barqueiro. Um pouco adiante o barqueiro se aproximou e me cobrou a moeda. O menino chorando estava sentado no barco. Tentei falar com ele, mas Caronte me impediu, barrando-me com suas mãos frias em meu peito. Eu o respeitei e tirei do bolso duas moedas que sequer imaginei que estavam ali. Entreguei-as em suas mãos, ele sorriu e então o menino parou de chorar. Vi eles se afastarem e sumirem em meio à neblina.

Acordei. Eu estava delirando, totalmente ensopado de suor e assustado na busca pelo significado daquele sonho. Levantei, lavei meu rosto e fui tomar uma dose de whiskey. Abri a porta da sacada e sentei numa poltrona confortável. Uma leve brisa pouco esforço fazia para apaziguar o calor do dia. Fumei um cigarro e outra dose se fez necessária. Outro cigarro e uma nova dose, e assim fomos, eu e o velho whiskey, até as cinco horas da manhã, quando, vencido pela bebida, dormi sentado com os pés para fora da porta de vidro. Acordei as onze horas com o sol queimando meus pés. Tomei um banho, mas nada fazia efeito.

Foi o dia mais silencioso e triste dos últimos tempos. Guilhermo ligou dizendo que não poderia retornar naquela semana, mas prometeu regressar na seguinte. Algo estava estranho em tudo, como um quadro que faltasse na parede ou uma lembrança que se deixava esquecer sem ao menos sequer saber qual era. Parei próximo ao jardim e vi um belo copo de leite pérola negra que havia se aberto no período em que estivera fora. Por algum motivo fiquei fixado em sua beleza, absorto em devaneios e pensamentos desencontrados até começar a chorar – acho que pela falta de chuva – e chorei por dias e noites sem parar.

As garrafas de whiskey se esvaziavam uma após a outra e um clima de trevas se fez diante de meus olhos. Os lábios balbuciavam conversas que tive sozinho, ininteligíveis para qualquer outra pessoa. Estava fraco e mal tinha forças para alimentar Colombo que parecia tentar de todas as formas me chamar a atenção para a vida. Porém, nada parecia fazer qualquer sentido. No segundo dia o telefone passou a tocar de tempos em tempos e os carteiros passaram a largar cartas e cartas em minha porta, mas eu preferi apenas me omitir da vida. Arrastei meu corpo até lá e levei todas até a mesa, onde abri uma após a outra, passando os olhos em todas, mas sem ler os conteúdos, jogando tudo no lixo.

No terceiro dia eu senti um pouco de fome, mas ao tentar comer, fui direto ao banheiro onde vomitei. De volta a cozinha, peguei outra dose de whiskey e ela me fez bem. Olhei meu rosto no espelho da sala e me assustei, pois pouco me lembrava quem já tinha sido um dia. Tentei recordar no passado um momento em que eu tivesse sido feliz, mas uma névoa cobria meus pensamentos e não pude recomeçar. As mãos abaixadas sobre a pia, o rosto molhado, a água escorrendo e levando embora toda minha força. Olhei novamente no espelho e vi Mozart doente me encarando e pactuando comigo meu leito de morte. Lembrei de tantos planos e projetos que eu mesmo boicotei, de tantas viagens que eu quis fazer, tantos lugares para conhecer, mas que foram todos jogados na lixeira da existência pelo comodismo e pelas desculpas que eu me dei ao longo do tempo.
Colombo deitado do meu lado abanava o rabo.
- Sempre quis conhecer o Egito! A Grécia! Colombo, nós nunca fomos para o Tibet ou para o raio que o parta! – Ele apenas me fitou, demonstrando total solidariedade comigo.
- As pirâmides, Colombo, todas as pirâmides!
Comecei a chorar novamente, pelo simples fato de não conhecer o Egito. Parecia não haver esperança quando eu olhava meu rosto cansado, abatido, uma barba de tantos dias e as mesmas roupas da véspera. E permaneci assim pelos dias que se seguiram. Para evitar transtornos abri um grande saco de comida para Colombo e deixei tudo atirado no chão da cozinha. Para mim, providenciei três garrafas de whiskey que me acompanharam até o quarto. Foram mais três dias em total silêncio e solidão.

Deitado em minha cama eu naveguei pelos mares da tristeza profunda que se abateu sobre minha embarcação e relutante fui obrigado a enfrentar meus demônios que pareciam rir de mim a cada instante enquanto eu me revoltava na cama. Meus olhos pareciam cerrados para sempre e me sentia preso sem ter qualquer amarra. Meu braço apenas tinha força para ingerir uma nova dose e em meu torpor eu entrei nesse transe maligno que me afundou ainda mais em minha decepção.

Com o tempo me acostumei a ter os olhos fechados, pois a cada vez que eu os abria, a dor e a vergonha aumentavam como ondas revoltosas que batiam em mim, tentando me afundar. Nesse delírio em que a realidade parecia se esvair por entre as frestas da janela, eu fui jogado para o mar e nas profundezas tão negras de suas águas eu vi minha vida se consumir diante do meu medo de encarar os fantasmas do passado. Torturado por minha própria mente, não vendo qualquer sinal de sanidade que tivesse restado, procurei em minha gaveta alguns comprimidos. A tristeza havia tomado conta de todo o ambiente e só consegui lembrar de recitar um poema de Florbela Espanca, que Colombo assistiu com muita atenção:

– “Morte, minha senhora Dona Morte, Tão bom que deve ser teu abraço! Lânguido e doce como um doce laço E, como uma raiz, sereno e forte.”
   Comecei a rir.
- abraço da morte, meu caro. – falei para Colombo com a voz já fraquejando pelo excesso de álcool, enquanto enchia novamente o copo. Continuei.
- “Não há mal que não sare ou não conforte, Tua mão que nos guia passo a passo, Em ti, dentro de ti, no teu regaço, Não há triste destino nem má sorte”
- “Dona Morte dos dedos de veludo, Fecha-me os olhos que já viram tudo!”
O corpo enfraqueceu, o copo caiu no chão, os pensamentos flutuaram pela noite e eu cai na cama, repetindo o poema até desmaiar e os comprimidos cumprirem sua promessa.
- “Dona Morte dos dedos de veludo, Fecha-me os olhos que já viram tudo!”

Sobre a mesa uma carta escrita pela metade, endereçada a Guilhermo, escrita de próprio punho por Joaquim, na qual ele lamentava os erros, os enganos, o distanciamento. Dois parágrafos de recomendações sobre como cuidar de Colombo. Havia dinheiro na gaveta para tal providência. O terceiro e o quarto parágrafo se constituíam de nomes que deveriam ser contatados e ao lado de cada um havia uma mensagem que deveria ser lida. Na última linha o nome havia sido riscado, mas ainda era possível ler “Sophie”. Do lado estava escrito – “Eu te amei, mas a vida é feita disso, uma grande caixa de sonhos, viagens e chás que nunca vingaram”.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Réquiem para Joaquim - Capítulo VII

Após algum tempo sem tempo para escrever, resolvi retomar a história de Joaquim. Faltam ainda 3 capítulos que pretendo fechar até o final do ano. Espero que gostem e peço a gentileza de comentarem, pois é bacana ler os comentários dos amigos, seja pelo msn, pelo email ou por aqui. Abraços, Alexandre.

VII – Paris tem dessas coisas, coisas que talvez só aconteçam em Paris
Por Alexandre Nicoletti Hedlund

As poltronas velhas de couro marrom, confortavelmente, recepcionaram Guilhermo e Colombo que, lado a lado, me olhavam em silêncio contemplativo. Para mim era estranho ver Guilhermo depois de tanto tempo, com sua respiração cansada, um bigode espesso, uma calvície proeminente, mas olhos vivos, como se ainda tivesse vinte e poucos anos - olhos de aventureiro. Fui tomado por tamanha alegria em tê-lo na minha frente, que não conseguia achar palavras que fizessem sentido. Ficamos assim, em silêncio por um tempo, observando cada mudança que o sábio passar dos anos havia produzido em nossos rostos e mãos, até que – por coisas que não se pode explicar – uma grande gargalhada irrompeu o silêncio, como se tivéssemos lembrado da mesma coisa ao cruzar os olhos.
Guilhermo então se recostou melhor na poltrona.
- Joaquim, meu irmãozinho, que vida hein!! Você lembra quando Mercedes fez aquela festa surpresa?
- Como esquecer, Guido? Como esquecer. Você com cara de bebê assustado quando todos apareceram no seu quarto, e o susto de todos em ver você só de cueca?
Rimos e choramos, lembrando de tantas lembranças doces do passado, de um passado sem maldade, mas no fundo eu sentia e nunca pude lhe confessar, queria tanto Alicia comigo. Como um bom amigo, Guilhermo sempre soube disso e, respeitosamente, preferiu nunca atestar algo tão latente.
Colombo ao meu lado acompanhava tudo, como se estivesse conhecendo finalmente um Joaquim que viveu, que amou, que lutou e que com o tempo se resignou em ser só. Pude ver em seus olhos, ainda que não tivesse dito nada, que ele me admirava e queria que eu retomasse tal vida.
- O que lhe traz aqui? – perguntei a Guilhermo, pois passada a emoção inicial, a razão exigia um convencimento para tal visita.
- Preciso de você. Fui convidado a participar de um projeto em Paris e preciso de um engenheiro como você.
- Paris? Não posso ir. – disse rispidamente, ainda que não fosse a intenção ofendê-lo.
- Irmãozinho, o tempo passou, o outono se aproxima e quero você ao meu lado.
- Não Guido, não vou. – respondi agora em um tom sério.
- Joaquim! – Guilhermo me olhou com certa repreensão – Você vai!
- Guido, você sabe que eu e Paris não combinamos, eu nasci para viver nesse samba-bossa nova sempre triste.
- Há bossa nova em Paris, ou você se esqueceu de Baden? - Rimos (ele largamente, eu meio nervoso).
Confesso, meus caros, que meu coração atônito sofria com o simples sussurar: “Paris”!
- não posso ir e ponto final. Tenho compromissos por aqui, tenho Colombo que depende de mim, muitas obras para olhar, minhas plantas para regar, meu jardim para organizar, um projeto na zona sul para iniciar. Ou seja, não posso, e não insista. Olhe Colombo! Como vou deixar ele aqui?  – Colombo olhou reprovando minha fala, em uma postura típica de defesa de Guilhermo.
- Eu lhe devo essa, meu irmãozinho! Você precisa se livrar dos demônios que lhe deixam tão triste, eu lhe devo isso!
- Você não me deve nada, não seja tolo, Guilhermo! Se eu ajudei você em algum momento, foi por amizade, jamais por contrapartida e você sabe.
Lembrei-me de quando eu havia retirado Guilhermo da cadeia em Maracaibo. Das dificuldades para conseguir o dinheiro da fiança e a alegria dele em me ver na rua.
- Eu sei, por isso lhe peço perdão por insistir nisso, mas preciso de você. Salve-me outra vez, talvez a última.

Levantei e servi duas boas doses de whiskey. Entreguei a dose de Guilhermo em sua mão e pedi um tempo para refletir, indo até a sacada. Meu olhar se lançou no horizonte daquela cidade quente, que sem muito vento apenas produzia mais calor. Quando a dose tivesse terminado, esperava ter uma resposta para ele. E como se fosse um oráculo, no final da dose tive uma visão do que deveria ser feito.
- Tenho uma condição, Guido! Apenas uma.

Duas semanas depois aterrissamos em Orly.
Eu ainda estava desconfortável por voltar depois de tanto tempo, mas olhando ele com seu caminhar elegante, me senti na obrigação de rir. Paris parecia seu lar, sua pátria e a cada “bonjour” ele fazia um gesto cordial com a cabeça.
- Você é uma figura Joaquim!! Trazer o Colombo junto! E eu louco, por aceitar! – Guilhermo completou meu pensamento, enquanto caminhávamos em meio aos plátanos do Champ de Mars.
Colombo continuava elegante, em sua marcha, cumprimentando os transeuntes.
Sentamos em um banco e a atmosfera parisiense fez seu trabalho, incrustando em meu peito um sentimento perdido no tempo, um conjunto de memórias perdidas, uma bossa nova que teimava em tocar e a lembrança de Sophie.
Guilhermo, sábio por sua própria natureza, chamou Colombo para o gramado e permitiu que, em silêncio, eu vivesse novamente Paris. Sentado naquele mesmo banco, pude ver Sophie se aproximar com seus olhos verdes e um cachecol cinza que apenas desenhava seus cabelos castanhos no vento.
- Ma petite fleur! O que você traz escondido de mim?
Sophie ria o sorriso mais puro que eu vi em toda a vida e, agarrado em tal memória, quase senti encostar seu braço.
- Ma douce! - Ela respondeu – eu não tenho nada nas mãos!
- Sophie, seus olhos não me enganam! Que surpresa você tem ai? – ríamos o apaixonamento.
- Joaquim, seu bobo! – aquele português mal falado, respingado de um francês tão lindo, me corta a alma até hoje, apenas por estar na lembrança!
Sophie passou a mão em meu rosto coberto por uma barba rala que teimava em se fazer presente, enquanto a neve tornava Paris uma pintura digna do Louvre. Levantei e fui em sua direção, enquanto ela apenas tentava não sorrir sua arte e esconder as mãos. Mas tomada por um sentimento maior, não se conteve e me abraçou e nos beijamos protegidos pelo fim de tarde, enquanto ao longe se ouvia um jazzista de rua, desses que não deram certo, mas que cintilava um Stan Getz tão verdadeiro desses de se querer viver.
Aproveitando sua encantadora distração, peguei de suas mãos o objeto secreto. Eram entradas para uma apresentação de Luiz Bonfá. Embora eu admirasse a beleza da música dele, Sophie parecia mais animada ainda. Os franceses sempre amaram a bossa nova.
Enquanto eu a agradecia com um carinho em seu rosto levemente gelado pela neve, ouvi um latido muito familiar.
O sonho se dissipara em meio ao latido de Colombo. O vento gelado daquele final de tarde de outono me trouxe a triste realidade. Colombo sem muito entender, parecia me alertar que o relógio não havia parado de seguir sua eterna marcha para que eu pudesse me recompor de minhas fragilidades, derrotas e tristezas. Pelo contrário, parece ter me jogado para um futuro que não foi planejado ou que não foi organizado para assim acontecer.
- Como foi? – perguntou Guilhermo, admirando-me ao longo de todo esse tempo.
- Foi doce e perfumado como uma flor, a minha petit fleur. – respondi em meio a algumas teimosas lágrimas.
- Talvez ela não...
- Vamos embora, vamos para o hotel! – cortei rapidamente as hipóteses de Guilhermo ao tempo em que limpava meu rosto.
- Mas Joaquim, isso não é certo! Talvez ela tivesse culpa!
- Guido, não seja tolo, homem! Ela não foi! Eu esperei por ela tanto tempo, e ela nunca mais apareceu! Ela me deixou, abandonou o amor que eu quis lhe dar.
- Meu irmãozinho, meu caro Joaquim! Muitas coisas podem ter acontecido! Ela pode ter...
-Esqueça Guido! Não vim até Paris para lembrar de Sophie!
- Mas Joaquim! Talvez tenha sido um desentendido!
- E você acha que eu não pensei ao longo de todos esses anos, em várias coisas que pudessem explicar Sophie não ter mais aparecido! Eu pensei demais e sofri demais, e por isso não queria vir, pois sabia que esse turbilhão de pensamentos sobre ela voltaria! Por isso eu não queria vir.
- Mas Joaquim...
- Sem “Mas...”, Guido! vamos para o hotel!
E, assim, fomos, os três, para o Hotel Cluny Sorbonne. O taxista não estava com um cara muito amigável, mas um dinheiro extra fez Colombo se sentar confortavelmente, enquanto o homem dirigia seu carro pela noite de Paris, resmungando alguma coisa e cortando as preferenciais.
O Quartier Latin tivera uma aura tão linda no passado, mas hoje se rendia ao consumismo dos turistas. Era uma pena, mas Paris ainda é Paris, mesmo com tantos turistas, e, por isso, fiz questão da hospedagem ser ali, pois ficava próximo ao Jardim de Luxemburgo e Colombo precisava passear todas as manhãs para manter-se forte.
Liguei para a recepção do hotel e pedi uma chamada para o Brasil. Não sei dizer o porquê, mas precisava falar com meu irmão. O telefone tocou até cair a ligação. Infelizmente, pelo menos para mim, Victor não tinha telefone celular. Ele era desses professores de história que não aceitava tal tecnologia. Acho que no fundo ele estava certo, pois não se deixava prender pelo aparelho.
Conforme o tempo passava comecei a achar estranho que nossa adaptação a cidade envolvesse pontos estratégicos que Guilhermo sabia me lembrariam Sophie. Foi no terceiro dia que constatei que ele havia me enganado. Não tínhamos nada para fazer em Paris, a não ser um reencontro com meu passado.
Colombo acompanhava a vida pela janela do quarto enquanto eu me dirigia a um banho quente. Achei engraçado ver ele tão bem, como se estivesse em casa e com seu olhar ele agradecia pelo passeio. Na verdade eu não cogitei deixá-lo, pois sua idade já começava a lhe pesar.
A água caía sobre meus ombros. Fechei os olhos e comecei a cantarolar uma bossa nova apenas para relaxar. Eu estava cada vez mais tranquilo quando ouvi um sussuro, como se fosse em meu ouvido: “Eu não lhe deixei, ma douce”.
Abri os olhos assustado e estava sozinho, ouvindo apenas o barulho de meu coração que quase saltou pela boca. Fechei os olhos novamente na esperança de outra vez ouvir aquela voz, mas nada aconteceu.
Aquele pensamento percorreu minha cabeça durante a semana inteira e no final dela estávamos voltando ao Brasil. Era Sophie, eu sabia, tinha certeza. Mas afinal de contas, o que significava isso? Estaria, depois de tudo, agora louco?
Era sexta-feira e tínhamos fechado nossa estadia no Cluny. Minhas malas já estavam no táxi. Lembrei de voltar ao quarto apenas para pegar um livro de Rimbaud.
Estranhamente o livro estava aberto, disposto sobre a cama que eu ocupara ao longo do tempo. Aproveitei o hábito que tinha desde criança de tudo olhar, tudo querer ler, mesmo que fossem segredos alheios. (Desculpem meus caros, é um hábito feio, podendo até ser mal interpretado, mas é um hábito que carrego desde a infância, não se podendo evitar, assim como não se evita a respiração).
Nessa disposição estava o poema[1]:
Pas les beaux soirs d’été, j’irai dans les sentiers
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds:
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Conforme eu ia lendo, comecei a escutar novamente o sussuro, cada vez mais alto e vivo. Parei por um instante e fechei meus olhos. Foi como sentir Sophie em minha volta, sua respiração tranqüila que se acelerava perto de mim. Seu cheiro, seu gosto, era algo que não poderia explicar, tão forte a sensação que eu experimentava agora.

Abri meus olhos, em meio a lágrimas, e ouvi Sophie recitar os últimos versos de Sensation:

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien…
Mais un amour immense entrera dans mon âme,
Et, j’irai loin, bien loin; comme un bohémien
Par la Nature, — heureux comme avec une femme!

Senti o beijo de Sophie em minha fronte, como que me desejando um bom retorno.
Era chegada a hora de partir, mas, de alguma forma eu sabia, que ainda voltaria. Algo dizia que eu deveria voltar. Estranho pensar assim, eu que sempre fui tão cético, agora acreditando em sinais, em bons presságios. Tive de rir sozinho, olhando pela janela, o taxista resmungava por não querer Colombo em seu carro. Guilhermo afinava uma discussão em francês. Acho que ele precisava mesmo da minha ajuda. Desci o elevador com um ar muito tranquilo. Pensei comigo, Paris tem dessas coisas, coisas que talvez só aconteçam em Paris.


[1] Nas belas tardes de verão, pelas estradas irei,
Roçando os trigais, pisando a relva miúda:
Sonhador, a meus pés seu frescor sentirei:
E o vento banhando-me a cabeça desnuda.
Nada falarei, não pensarei em nada:
Mas um amor imenso me irá envolver,
E irei longe, bem longe, a alma despreocupada,
Pela Natureza — feliz como com uma mulher.